Maria das Neves Batista Pimentel

Pioneira do cordel feminino brasileiro

“Eu sou filha de poeta
E neta de repentista
Meu avô era Ugulino
E meu pai Chagas Batista
Também faço poesia
O poeta é um artista”

— Maria das Neves

Quem foi
Maria das Neves

Maria das Neves Baptista Pimentel nasceu em 2 de agosto de 1913, na Paraíba do Norte (atual João Pessoa), sendo registrada como Maria das Neves Nunes Baptista em 12 de agosto de 1913.

Filha do poeta e editor de cordel Francisco das Chagas Baptista, cresceu em uma família católica na Rua da República, 65. Seu pai fundou em 1913 a Livraria Popular Editora, além de possuir uma tipografia, proporcionando a Maria das Neves uma infância cercada por livros e facilitando sua entrada no mundo do cordel. Desenvolveu desde cedo o amor pela literatura, criando com os irmãos pequenas peças teatrais como brincadeira.

Pioneira do cordel feminino: Foi a primeira mulher a publicar folhetos de cordel no Brasil, rompendo décadas de hegemonia masculina no gênero, mesmo que precisasse usar o pseudônimo “Altino Alagoano” devido aos preconceitos da época.

“Não existia naquele tempo, folheto feito por mulher, e eu, para que não fosse a única, né? Meu nome aparecesse no folheto, não fosse eu a única, então eu disse: – Eu não vou botar meu nome.”

— Maria das Neves

Linha do Tempo

Obra Literaria Pioneira

Com dificuldades financeiras, Maria das Neves passou a “traduzir” para a literatura de folhetos narrativas oriundas da “literatura alta”, termo que ela usava para se referir às suas leituras eruditas. O objetivo era tornar mais acessível semântica e linguisticamente textos de origem erudita para um público de leitores/ouvintes semiletrados. Ela e Altino, seu marido, combinaram de usar um pseudônimo para facilitar a venda dos folhetos uma vez que na época não eram publicados folhetos com nome de mulheres, surgiu então Altino Alagoano.

O Viulino do Diabo ou O Valor da Honestidade

Publicado originalmente em 1938

Reimpresso em 1981, UFPB-FUNAPE.

Romance adaptado para a linguagem de cordel, conta a história de um violinista que faz um pacto com o diabo em troca de habilidades sobrenaturais com o instrumento.

Nova edição em 2023, Cordelaria Pedra do Reino.

Destaques da nova edição de 2023:

  • Prefácio da Prof. Dra Paola Torres;
  • Texto Explicativo da Prof. Dra. Rita Lemaire;
  • Texto de Contracapa do Prof. Marco Haurélio;
  • Correção ortográfica.

Cordel Feminino: Um Espaco de Voz

No universo tradicionalmente masculino do cordel nordestino, a presença de Maria das Neves Batista Pimentel representa um marco histórico para as mulheres brasileiras no campo literário. Utilizando um pseudônimo masculino, Maria das Neves não apenas rompia barreiras culturais e sociais, mas também abria caminho para as futuras gerações de mulheres cordelistas que viriam depois dela.

Sua obra e persistência inspiram hoje estudiosos do folheto nordestino e especialmente as mulheres que seguem lutando por espaço e reconhecimento na literatura de cordel contemporânea. Como diz o estudo “Uma voz feminina no mundo do folheto”, a obra de Maria das Neves é um precioso registro da capacidade feminina de transformar narrativas e conquistar espaços em tempos em que isso parecia impossível.

Cordel Feminino: Um Espaco de Voz

“Maria das Neves ao utilizar o pseudônimo promove uma dupla ruptura; ela rompe com seu próprio mundo, o mundo da mulher e rompe com a tradição familiar dos Nunes-Batista. Nega-se e nega a família. Ela se lança no mundo do folheto sem a tradição familiar dos Batista, que rejeita para conquistar o seu espaço. O nome da família é substituído por um nome desconhecido. “
– Maristela Barbosa de Mendonça (pag.199:200)

Homenagens e Reconhecimentos

Cordelteca da UNIFOR (2019)

Em 2019, a família de Maria das Neves autorizou a utilização de seu nome para uma cordelteca vinculada a Biblioteca Central da UNIFOR (Universidade de Fortaleza) – Fundação Edson Queiroz. A filha mais nova de Maria das Neves, Alzinete Pimentel, esteve presente na cerimônia de inauguração, acompanhada por familiares que viajaram especialmente para o evento. Que contou com a presença da presidente e da vice-presidente da Fundação Edson Queiroz, respectivamente, Lenise Queiroz Rocha e Manoela Queiroz Bacelar, do chanceler Edson Queiroz Neto, da reitora Fátima Veras, de vice-reitores, dos secretários de Cultura do Ceará e do Rio Grande do Norte e da idealizadora da cordelteca, a professora do curso de Medicina Dra.Paola Tôrres, além de professores, alunos, cordelistas. A mesa da cerimonia contou ainda com a presença do escritor, pesquisador e compositor paraibano Bráulio Tavares.

“Foi uma honra incrível ver o nome de minha avó perpetuado em um espaço educacional dedicado à literatura de cordel. A viagem a Fortaleza nos mostrou como seu legado continua vivo e inspirando novas gerações.”  (Suely Pimentel Libório).

82 ANOS DE PUBLICACoES FEMININAS NA LITERATURA DE CORDEL - Cordelaria castro

“Honrar o passado é a maneira mais admirável de alicerçar o futuro.
As mãos que apresentam esta obra se unem a muitas outras numa construção que atravessa o tempo para saudar a memória daquela que é a nascente do cordel feminino: Maria das Neves Batista Pimentel (1913-1994)”

(Izabel Nascimento, sergipana, pedagoga, poeta cordelista e radialista)

“O que admiro na historia de Maria das Neves Batista Pimentel é que, a meu ver, ela foi alguém que estava acima de seu tempo. Naquela época as mulheres não eram valorizadas e nenhuma gráfica editaria um folheto escrito por mulher. Foi quando ela arquitetou um plano que, com certeza, seus folhetos teriam uma aceitação em massa: Adotou o codinome Altino Alagoano e assim viu estourar a venda de seus folhetos.”  (De sua filha Alinete Pimentel, com muito amor por aquela que me deu a vida).

A primeira cordelista (Maria das Neves) - Luciene de Albuquerque (cordelista)

A autora convidou a neta Suely Pimentel Liborio para escrever o prefácio.

“A vida de Maria das Neves Batista Pimentel foi um marco para a literatura de Cordel, em especial a escrita feminina, minha avó talvez não tenha tido tempo de entender a importância de suas publicações para o contexto das mulheres no Cordel. O recurso literário utilizado por ela com o pseudônimo de Altino Alagoano não foi suficiente para esconder sua escrita marcante, sua formação culta e seus valores, revelados nos versos do Violino do Diabo ou O valor da Honestidade.”

– Suely Pimentel Libório (Prefácio)

83 ANOS DE PUBLICACOES FEMININAS NA LITERATURA DE CORDEL - Cordelaria Castro

Orquestra Sinfonica Brasileira (2021)

Em 2021, uma poesia escrita por Suely Libório sobre sua avó Maria das Neves foi utilizada na abertura de um evento da Orquestra Sinfônica Brasileira, como parte de uma homenagem ao Nordeste brasileiro.

O poema, declamado pela atriz Zezé Mota, trouxe à luz a importância de Maria das Neves como pioneira na literatura de cordel feminina para um público mais amplo.

“Ver as palavras sobre minha avó ecoarem em um evento tão prestigioso, declamado por uma atriz de renome nacional, foi um momento de emoção indescritível para toda a família.”

Vida em Versos e A primeira brasileira a publicar um cordel – Paola Torres

“Esse livro é dedicado a todas as mulheres contadoras de historias, que imortalizaram o cordel e inspiraram o surgimento e implantação dessa arte no Brasil. E também a Alzinete Pimentel (filha) e Suely Pimentel (neta), que me contaram a história da sua querida Mariinha (Maria das Neves)”

– Paola Torres (Médica, Professora e Cordelista)

Cordel das Rosas – Silvinha Franca/ Valeria Barreto

Dedicamos esta primeira antologia à primeira mulher cordelista (MARIA DAS NEVES BAPTISTA PIMENTEL) que até hoje nos inspira a escrever e publicar nossas obras. Que nenhuma de nós tenha mais nossos direitos de escrever e publicar nossos trabalhos negados.

Maria das Neves é
Até hoje inspiração,
Com muita dedicação,
Ela escreveu e pôs fé,
De Maria pra José
Só assim publicaria,
Mas pra nossa alegria
Alguém identificou
Seus escritos e mostrou
Tais obras quem escrevia.

– Silvinha França

Literatura de Cordel do Sertao a Sala de Aula – Marco Haurelio

“No emaranhado de contradições envolvendo não somente relações comerciais, mas também relações de poder, o exemplo de Maria das Neves Batista Pimentel, nascida a 2 de agosto de 1913, em João Pessoa, capital paraibana, é emblemático. É dela, até onde se sabe, o primeiro romance do gênero escrito por uma mulher, uma versão de O Corcunda de Notre-Dame, do escritor francês Victor Hugo, datada de 1935. Filha do pioneiro Francisco das Chagas Batista, Maria das Neves assinava seus  trabalhos sob o pseudônimo Altino Alagoano, nome de guerra de seu marido Altino de Alencar Pimentel.” ( pag  100)

Legado Pioneiro

Como uma das primeiras mulheres a publicar cordéis no Brasil, Maria das Neves:

  • Desafiou normas sociais da época;
  • Adaptou clássicos para a linguagem popular;
  • Contribuiu para a economia familiar através da arte;
  • Preservou tradições enquanto abria novos caminhos;
  • Levantou discussão sobre o lugar da mulher na literatura popular;
  • Desnudou a necessidade de pseudônimos masculinos para aceitação de sua obra;
  • Revelou a persistência feminina diante das adversidades;
  • Ressaltou a importância da memória e do reconhecimento mesmo que tardio.

Galeria de fotos da familia

Sobre o Projeto

Este site é uma iniciativa da família de Maria das Neves Batista Pimentel, com o objetivo de preservar e divulgar a memória, obra e legado desta importante figura da literatura de cordel brasileira.

Diferente de outras fontes de informação, aqui você encontra relatos autênticos, registros familiares e detalhes sobre a vida e obra de Maria das Neves compartilhados por quem viveu ao seu lado e preserva sua memória.

Acreditamos na importância de manter viva a contribuição das mulheres pioneiras para a cultura brasileira, especialmente em campos tradicionalmente dominados por homens, como a literatura de cordel.

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Se você possui histórias, fotos, relatos ou qualquer material relacionado a Maria das Neves Batista Pimentel, entre em contato conosco. Sua contribuição é valiosa para enriquecer este acervo de memória.

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Maria das Neves Batista Pimentel

Site dedicado à preservação da memória e obra de Maria das Neves Batista Pimentel, pioneira na literatura de cordel feminina no Brasil.

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